TERAPIA

Caso as outras formas de terapias não tragam a você a qualidade de vida almejada, pode ser que simplesmente estão procurando a origem da questão no lugar errado.

Depressão - conflito entre poder e liderança - ansiedade - medo - rejeição - angústia -melancolia - raiva - síndrome do pânico - fobias - tristeza sem fim - medo de falar em público - impotência - timidez - stress - dores fantasmas - traumas emocionais - crenças limitantes - abuso sexual

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terça-feira, 24 de julho de 2012

ALÉM DO EGO





Entrevista feita por Jomar Morais - Planeta Jota



A terapia transpessoal usa estados alterados de consciência e regressões a "vidas passadas" para curar traumas e neuroses. Acompanhe o trabalho do especialista inglês Dr. Roger Woolger e conheça as ideias em que se baseia esse novo tipo de tratamento psicológico. 


Sigmund Freud, talvez, sentiria arrepios - ou sacaria logo uma explicação baseada em algum desvio da libido. Um psiquiatra fisiologista, daqueles que adoram prescrever Prozac para qualquer paciente, certamente reagiria com um riso zombeteiro. Como jornalista, estou curioso e um tanto perplexo ante a cena insólita, mas devo admitir: se em meu lugar estivesse Carl Jung, um dos pioneiros da psicanálise que decidiu ir além da fronteira estabelecida por Freud, muito provavelmente ele estaria à vontade para testar aqui suas teorias inusitadas, como a do inconsciente coletivo. 

Eis a cena: no centro do salão, deitada sobre a cerâmica fria, a jovem Maria (nome fictício, por razões óbvias) tem os olhos marejados e carrega na face uma expressão de angústia enquanto fala de assuntos estranhos à pequena plateia. 

- Quero o meu filho – diz, soluçando. 

- Aqui está ele – responde, em inglês, auxiliado por um tradutor, um senhor de voz grave, ora fraternal e meiga, ora firme e imperativa, que coloca suavemente sobre o colo da jovem um pacote de toalhas enroladas. 

Mais lágrimas. Maria abraça os panos como se fosse um bebê. Sua expressão agora é de ternura e calma. 

Ainda há pouco, seu relato fora dramático. Entre os presentes, houve até quem chorasse com ela. Estimulada por perguntas do gringo calvo e sexagenário, mas de aparência jovial, Maria falou de um passado não localizado, permeado de emoção. Havia sido uma garota pobre que se apaixonara por um homem casado, de linhagem nobre, e por causa disso acabou perseguida pela rival e, depois, abandonada pelo amante que, para não deixar vestígios da união, sequestrou-lhe o filho recém-nascido. Um trauma imenso que o senhor de voz grave esforça-se para fazê-la superar mediante conselhos que lembrariam uma sessão corriqueira de psicoterapia, não fosse por um detalhe: Maria não estava falando de Maria, mas de uma existência pregressa na qual a mesma mente, agora tumultuada por lembranças remotas, sustentou outra personagem no palco da vida. 

Vidas passadas? Reencarnação? Afinal, estamos falando de Espiritismo, de parapsicologia, de alguma religião do Oriente? Não. Isto é psicologia transpessoal. O salão onde os fatos se passam pertence a um spa encravado no meio da mata atlântica, a 50 quilômetros de Recife, e é aqui que um grupo de 20 pessoas, a maioria psicólogos de formação tradicional, aprende com o inglês Roger Woolger os fundamentos e as técnicas da escola transpessoal, um híbrido das ideias de Jung e dos pesquisadores americanos e europeus que na década de 60 analisaram a psique humana a partir de estados alterados de consciência. Transe, insights, visões e lembranças de vidas anteriores – manifestações que um psiquiatra ou um psicanalista ortodoxo não hesitariam em rotular de patológicas - são encarados pelo professor e seus alunos com absoluta naturalidade e reconhecidos como expressões da natureza mais profunda do ser, o território da espiritualidade. Através deles, acreditam, o homem pode chegar à resolução de seus conflitos internos e à cura de distúrbios psicossomáticos. "Freud desbravou áreas muito importantes, como a da sexualidade infantil, mas foi Jung quem percebeu que todas as nossas neuroses são de natureza espiritual", diz Woolger. 

Formado em psicologia pela Universidade Oxford, na Inglaterra, Woolger começou a carreira como psicanalista junguiano. Mais tarde, estudou o budismo, obteve o doutorado em religiões comparadas pela Universidade de Londres e, desde a década passada, dedica-se à formação de terapeutas transpessoais em vários países através de seu Woolger Training International. Escreveu, entre outros, o livro As vidas alma, obra na qual resume suas ideias e a técnica de "terapia regressiva integral", uma espécie de psicanálise do espírito. Sua tese é simples: há dramas inacabados cujos resíduos a alma carrega de um corpo para o outro, provocando receios, doenças e agressividade. A explicação para esse fenômeno, segundo Woolger, está nas camadas cada vez mais profundas do inconsciente descobertas pelos pesquisadores modernos. É nessas faixas que se encontra o que Jung chamava de inconsciente coletivo, conjunto de marcas ou impressões que funcionam como uma espécie de DNA psíquico da humanidade, expressado nas mitologias de todos os povos, nos temores e nas aspirações coletivas. E é lá também que pedaços de antigas histórias individuais continuariam a ecoar no presente das pessoas. 

A forma de superar esses traumas, conforme Woolger, é revivê-los, enfrentá-los e entendê-los através da regressão, perdendo-se assim o medo inconsciente de vivenciá-los outra vez no cotidiano. Quando isso ocorre, desaparecem as fobias, as dores inexplicáveis e outros sintomas gerados por velhas cicatrizes da alma. No caso de Maria, o episódio do amante sequestrador estaria por trás de seu complicado relacionamento atual com os homens, caracterizado por profunda desconfiança e uma boa dose de agressividade que a impedem de manter uma relação duradoura e serena com os namorados. Se ela conseguiu livrar-se dos sintomas neuróticos após a regressão, ainda não se sabe (horas depois da sessão, a jovem, que é também psicóloga e aluna de Woolger, continuava a sentir enjoos e a vomitar, sinalizando o forte impacto emocional da experiência), mas o terapeuta afirma que seu portfólio está repleto de casos de pacientes que se curaram de distúrbios físicos e psíquicos desse modo. 

A psicologia transpessoal, como o próprio nome sugere, aborda o ser humano numa perspectiva que transcende o ego (o "eu", caracterizado por forte senso de identidade) e a consciência de vigília, a chamada consciência normal. A consciência é vista como um campo ou espectro, semelhante ao espectro eletromagnético, onde cada nível ou "frequência" manifestaria um modo de percepção. Cabe ao terapeuta levar em conta as diferentes percepções do paciente, mesmo aquelas derivadas de estados tidos como anormais ou doentios, e ajudá-lo a atingir níveis superiores de consciência, nos quais o autoconhecimento e o sentido de unicidade liberam o indivíduo dos conflitos egóicos, proporcionando-lhe uma vida serena e prazerosa. 

Não é tarefa fácil, a julgar pela herança legada por nossos ancestrais. "Guerras, escravidão e abusos diversos cometidos durante séculos deixaram feridas no inconsciente coletivo que hoje contribuem para as depressões coletivas e a atmosfera psíquica conturbada nas sociedades industriais", afirma Woolger. "Como se dizia em Roma, há medo em todos os lugares porque os bárbaros estão às portas". Ao mesmo tempo, a fixação em aspectos inferiores da consciência impede que o homem realize a autocrítica e dê um salto qualitativo. No nível do ego, que caracteriza a nossa "normalidade", a pessoa tende a identificar-se não exatamente consigo mesma e com o seu corpo, dizem os psicólogos transpessoais, mas com uma representação mental que ela aceita como sendo o seu "eu", diferente e independente de tudo e de todos. O apego a essa autoimagem determina que as relações interpessoais só devem ser mantidas se houver vantagem específica para o ego, estabelecendo assim uma barreira entre o indivíduo e os outros, fato que está na raiz dos processos de angústia e ansiedade. "Nas sociedades industriais, as pessoas estão desconectadas de suas necessidades profundas, inseguras e dependentes de coisas superficiais", lembra Woolger. 

É possível, no entanto, evoluir desse ponto para o chamado nível biossocial, marcado pela preocupação com os aspectos do ambiente natural e social, e daí para o nível existencial, em que emerge um senso de identidade superior, responsável pelos ideais humanistas e o desenvolvimento das potencialidades ligadas à emoção e à razão. No nível transpessoal, enfim, dá-se a expansão da consciência para além das fronteiras do ego, correspondendo à identificação com o meio ambiente, onde tudo se mostra interligado de forma sutil e não linear. 

A questão é como alcançar tais níveis superiores, um ponto que divide os terapeutas transpessoais. Há quem acredite que não convém escarafunchar os porões da mente em busca de traumas desta ou de vidas passadas, mas apenas elevar o padrão de percepção através de estados alterados de consciência, como o alcançado durante a meditação, ou do cultivo das emoções e pensamentos positivos. É o caso da antropóloga e doutora em psicologia Susan Andrews, que mantém em Porangaba, no estado de São Paulo, o projeto Visão do Futuro, espécie de spa destinado a treinamentos antiestresse e ao desenvolvimento dos níveis superiores da consciência. "O que importa não é voltar ao passado, mas levar a mente a projetar imagens positivas", diz Susan. "O universo é holográfico e todas as imagens acabam se materializando algum dia". Além disso, a rememoração de antigos traumas desencadearia emoções negativas e desequilíbrios químicos que põem em risco a saúde mental e física do paciente. "Um único impulso de raiva é capaz de deprimir o nosso sistema imunológico durante seis horas", diz Susan. 

Woolger, que utiliza em seus trabalhos técnicas de psicodrama e as ideias de William Reich acerca das energias bloqueadas no corpo, concorda que as regressões podem oferecer risco a pessoas muito instáveis, que não suportariam a carga emocional (o que também ocorre nas terapias convencionais), mas rebate o argumento da colega americana. "Há gente na transpessoal querendo ir logo para o espírito e para a luz, sem tratar as feridas, mas isso pode ser apenas um modo de fugir dos problemas", afirma. Mesmo as tradições espirituais esotéricas, como o budismo e o sufismo, segundo o terapeuta, não optam pela negação da dor. "Os budistas começam olhando para o sofrimento de todos os seres e os sufis, que formam o segmento iniciático muçulmano, costumam perguntar: você já chorou esta semana?" 

Apesar de incluir aspectos relacionados à reencarnação, um ensinamento basilar em religiões como o Espiritismo, de Allan Kardec, a terapia regressiva de Woolger deve ser vista, antes de tudo, como um meio de promover a catarse, processo utilizado em quase todos os tipos de psicoterapia. "Não faço regressão para provar que a reencarnação existe", diz o psicólogo. "Isso seria pesquisa científica e meu objetivo é chegar pela catarse à liberação dos traumas das pessoas". Para Woolger, pouco importa se os fatos lembrados pelo paciente ocorreram na sua infância ou há séculos, se são mesmo fatos de sua história individual ou fantasias. O importante é que eles venham à tona e a energia seja desbloqueada. "Quando o assunto é reencarnação, prefiro concordar com os budistas", conclui. "Não há um ego que reencarna. Só as neuroses reencarnam". 

A formação da escola transpessoal levou décadas, mas tanto Woolger quanto Susan reconhecem: ainda não há uma unidade substancial que pelo menos reduza as polêmicas que cercam a sua prática. Tudo começou quando Jung, na década de 1920, convenceu-se de que a abordagem freudiana dos fenômenos psíquicos - estritamente histórica e determinística - deixava muitas lacunas, que ele se propôs a preencher com o conceito de sincronicidade, uma explicação para a ligação não causal entre eventos, como nas coincidências separadas no tempo e no espaço. Na época, a física moderna começava a considerar novos paradigmas sobre a natureza do mundo físico e Jung, que também se interessava por esse tipo de estudo, chegou a trocar ideias com Albert Einstein sobre sincronicidade. Só 40 anos depois, no entanto, as pesquisas de estados alterados de consciência – inicialmente provocados com drogas psicodélicas, como o LSD -, e o estudo das experiências místicas de pico permitiram a estudiosos como Abraham Maslow, Stanislav Grof e Ken Wilber completarem o quadro teórico básico da nova corrente em psicologia. Em resumo, o que define a orientação transpessoal é um modelo que reconhece a importância das dimensões espirituais da psique humana e o potencial para a evolução da consciência. Segundo Maslow, assim como existe no indivíduo uma pulsão inconsciente para a experiência sexual, também parece haver uma pulsão para a espiritualidade, através do desenvolvimento dos níveis de percepção. Quando esse impulso é relegado e o afloramento dos níveis transcendentes da personalidade impedido, o resultado é o desequilíbrio psíquico e físico, terminando com o surgimento de vários tipos de doenças.